quarta-feira, 28 de setembro de 2011

TÚNEL DO TEMPO

Pudéssemos nós voltar no tempo e não encontraríamos na História da Educação mineira situação semelhante a estes 112 dias de greve/guerra na luta pelo Piso. Foram 112 dias vividos de diferentes formas conforme a atuação dos atores e dos espectadores desta greve que muito bem poderia virar roteiro de filme com direito a Oscar e tudo.
Alguns educadores se portaram como atores de primeira e é a estes que dedico este texto.  Estes estavam ali na linha de frente, sempre no set de filmagem, prontos para entrar em ação, visto que dispensavam os dublês. Preferiam o perigo da vida real ao conforto ilusório dos sofás, camas e cadeiras que sustentaram o ócio daqueles que se propuseram a ficar de espectadores esperando os aplausos daqueles que os oprimem.
O primeiro grupo, o dos atores, enfrentou verdadeiras batalhas, percorrendo quilômetros e quilômetros fechando o cerco ao inimigo que sempre se esquivava dos confrontos, seja fugindo pelos fundos ou se escondendo atrás de verdadeiras muralhas humanas. À indiferença do governador somaram-se a obediência praticamente servil da imprensa mineira e o jogo de interesses que toma conta da Assembleia Legislativa. Foram necessários dois meses para que o governo saísse do anonimato. O grupo incomodava demais. Em cada canto das Minas Gerais lá estava uma parcela do grupo. E como incomodavam! Palavras de ordem, gritos, apitaços, passeatas monumentais, peças de teatro, ocupações pacíficas, assembleias semanais, votações unânimes, interrupções no trânsito, educadores acorrentados...  passaram a fazer parte do cotidiano dos mineiros. Cortes e redução de salários não foram capazes de amedrontar o grupo. O governo, então, contra-atacou com reforço de peso: a justiça mineira que não é só cega, mas tetraplégica quando se trata de impor alguma derrota aos grandes. O grupo, até então chamado de insignificante, crescia em atitude e importância, ganhando o apoio e a simpatia de lideranças e movimentos sociais. A luta já não era só daquele grupo. Outros atores de renome foram envolvidos. Um se perdeu em suas declarações que desvalorizavam justamente aquilo que ele deveria mais prezar: a Educação; outra, poderia ter assumido pelo menos o papel de atriz coadjuvante, mas abandonou o set de filmagens antes do grande ato na praça que mudou de nome. E foi nessa praça que o valente grupo deixou claro que não estava disposto a abrir mão daquilo que almejava. Os já famosos “acorrentados” precisavam dar licença porque aquele set de filmagem já havia sido preparado para o “grande pop-star”. Era festa para poucos e ia passar ao vivo em horário nobre. Prometeram aos “acorrentados” um  outro momento de glória. Eles e mais milhares de educadores eram pessoas não gratas naquele evento: 1000 dias para a Copa e os educadores há mais de três meses em greve. Estes não foram convidados para o jantar de mais de 600 mil reais, mesmo tendo contribuído com suor e lágrimas para ele. O cardápio deste seleto grupo foi outro: spray de pimenta, bala de borracha e bombas de efeito moral.
Nem a mídia subserviente conseguia mais fingir que não via. Eram atores que a cada dia ganhavam mais fama. O elo ou elos que os uniam eram fortes demais para serem rompidos. Veio a greve, a de fome... Dois bravos guerreiros e dezenas de acorrentados foram os principais responsáveis por derrubarem os muros da indiferença e da ignorância atrás dos quais se esconderam por longos 112 dias o governo e sua trupe de deputados. Veio a promessa de negociação. Um novo ato ou capítulo que se inicia. Greve suspensa. Agarramo-nos à esperança de que agora o governo nos pague o tão sonhado Piso e respeite a nossa carreira.
Não podemos voltar fisicamente no tempo, mas estes 112 dias, com certeza, ficarão registrados na História de Minas como a mais forte prova de que o povo unido jamais será vencido.
Orgulho-me de pertencer a esta classe, especialmente a este grupo que não mediu esforços para lutar por seus direitos.

Um abraço,

Rogério Trindade.

sábado, 17 de setembro de 2011

O Kadafi das Minas Gerais

Muitas conjecturas têm sido feitas  nos últimos dias, especialmente nestes 102 dias de greve da rede estadual de ensino, sobre o comportamento insano do governador Anastasia. Arrisco-me a dizer que todas estão corretas, mas atenho-me à análise de uma delas: a de que este senhor quer reeditar algumas das páginas mais tristes de nossa História.
 À época da ditadura militar, estudantes e professores foram os mais perseguidos e criminalizados. As escolas e universidades são lugares que privilegiam o saber, a reflexão e a crítica. Esta é a razão pela qual são os primeiros locais que têm de ser "destruídos' por governos ditatoriais que veem nestes estabelecimentos um 'perigo" para os seus projetos de governo. Logo, tentam destruir o que de mais sólido se constrói ali dentro: o ideal de liberdade e de democracia latentes nas veias daqueles que se deixam "contaminar" pelo vírus da sabedoria.
Para os ditadores, palavras como liberdade e democracia soam como o barulho de um vulcão prestes a entrar em erupção. Contudo, qual a atitude mais sensata ao se perceber tal fenômeno? Os normais provavelmente sairiam em busca de informações que pudessem ajudá-los a sair dali o mais rápido possível (diálogo). Os ditadores, porém, têm a falsa ideia de que podem tapar o vulcão (o problema) a qualquer custo, afinal de contas têm todo o aparato (mídia comprada, dinheiro, força militar) de que necessitam. Assim, a ditadura no Brasil perdurou dolorosos anos e ceifou valiosas vidas. Acabou, em tese, porque, volta e meia, surgem aqueles que querem ressuscitá-la através de seus feitos. Assim é que surgem Chávez, Kadáfi, Hitler, Pinochet e tantos outros.

Mas porque incluir Anastasia no rol dos ditadores? As atitudes do governador mineiro tais como o uso de força militar desproporcional, o controle da imprensa, a perseguição aos seus opositores, a promoção pessoal através da propaganda maciça, o desprezo à população já não são suficientes?
Um político nato buscaria soluções para os problemas; os ditadores querem escondê-los a todo custo. Com a maior greve da educação de Minas, o muro que Anastasia construiu ao redor de si já começou a ruir e já não é possível mais esconder os problemas.
Mesmo com todo o controle que ele tem da imprensa e até do judiciário, sua popularidade despencou, embora seu nome nunca tivesse tanta evidência. Saia à porta de sua rua e pergunte aos passantes qual o político pelo qual eles têm mais antipatia nos últimos dias.
Já faz um bom tempo que ele não pode dar um passo para inaugurar suas obras sem que pelo menos centenas de trabalhadores estejam no seu encalço cobrando melhores condições e trabalho e salários mais dignos. A resposta é sempre a mesma: o descaso e a indiferença como formas de menosprezar os movimentos sociais. Quando não podem passar despercebidos, tais movimentos são reprimidos por policiais que parecem desconhecer o fato de que também são trabalhadores e explorados.
Seus eventos são preparados de modo a receber poucas visitas, sempre da elite. O evento de ontem (inauguração do relógio da Copa) é exemplo disso. Quase todos os transeuntes que passavam ao largo (literalmente) da antiga Praça da Liberdade (explico adiante) se perguntavam qual era o evento que acontecia ali. Aliás, não fosse a presença de milhares de educadores e estudantes e de centenas de militares o evento passaria praticamente despercebido, mesmo com a promessa da presença da presidenta Dilma.
Mas, a Praça da Liberdade mudou de nome? A julgar pelo que ocorreu ontem, sim. Primeiramente, os manifestantes que se fizeram acorrentar em frente ao local foram literalmente cercados por grades e pela tropa de choque, sendo impedidos de se alimentarem, matarem a sede e de irem ao banheiro. A praça foi toda cercada ao redor com aquelas grades que se usam quando se  espera um grande pop-star. Do lado de dentro, os companheiros ilhados (depois liberados após acordo), policiais suficientes para dar volta na praça (fora os que estavam dentro de ônibus, só de espreita) e, já dentro das cercanias do Palácio, o palco preparado para receber "sua alteza" e seus convidados ilustres. Do lado de fora, milhares de professores e estudantes ávidos por participarem da festa. Não é a Copa? Não é o futebol uma paixão mundial e orgulho dos brasileiros? Ali mesmo, fizeram a festa, do jeito que podiam, e deram show com canções do tipo: "É ou não é/ piada de salão/ tem dinheiro para a Copa/ mas não tem pra Educação." A musiquinha e outros gritos não agradaram muito "os de dentro" porque não se incomodaram nem um pouco em colocar vários ônibus em frente para tirar a visibilidade. Ali atrás, longe das câmeras, alguns dos "de dentro" aproveitaram para brindar "os de fora" com gás de pimenta.
O brinde não foi bem aceito porque logo as tais grades começaram a fazer barulho e vir ao chão. Gritos, barulho, sangue, ameaças de prisão... Não convencida, a multidão resolveu mudar de lado (pra dentro, não) da praça. Lá também a recepção foi calorosa: bombas de efeito moral (e põe moral nisso).
Assim foi que Anastasia pôs seu relógio da Copa pra funcionar: sem Dilma, sem Pelé e rodeado de antipatizantes, mesmo tendo atrasado o início do evento só para aparecer ao vivo no JN.
E é assim que continua com ar de imperador o Kadafi das Minas Gerais: idolatrado por alguns, odiado por milhares.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Os três tipos de educadores durante uma greve


COLEGAS,
Na vida, todos procuramos levar vantagens, embora tenhamos, muitas vezes, que lidar com as desvantagens. A princípio, esse desejo de sempre sair ganhando parece ser justo. Contudo, quando queremos levar vantagens em cima do sofrimento ou da luta de outros, esse desejo passa a ser dos mais perversos que conheço.
No momento em que nos aproximamos de completarmos a marca histórica de 100 dias de greve, achei por bem fazer uma análise das “vantagens” que cada tipo de educador pensa estar levando ao se posicionar diante do movimento e da sociedade.  Esta análise pode parecer dura, mas foi a que me surgiu no momento. Como professor e pai, angustiado como tantos outros, me vi obrigado a refletir sobre o porquê de termos ainda estes três tipos de educadores, quando o mais viável era termos apenas o terceiro. Pense comigo e veja onde você se encaixa.
“VANTAGENS” DE SER UM “ASSINADOR DE PONTO”
·         Não perder nem um centavo no pagamento enquanto alguns de meus colegas passam a pão e água ou dependendo de parentes;

·         Poder chegar e sair da escola a hora que quiser, pois ninguém está ali para fiscalizar;

·         Poder colocar as fofocas em dia enquanto meus colegas esquentam a cabeça tentando conquistar aquilo que também será meu;

·         Fazer média com a Superintendência ou a Direção, mostrando como sou comportadinho (a) e dedicado à profissão;

·         Continuar agradando nosso chefe maior, pois a qualquer hora ele pode reconhecer o meu esforço;

·         Poder entrar nas contas do governo como mais um que não está em greve;

·         Continuar merecedor dos elogios do chefe que, a todo instante, agradece minha dedicação nos jornais.
“VANTAGENS” DE SER UM FURA-GREVE
·         Ficar bem visto pelos pais e alunos, mostrando mais amor à profissão que ao salário;

·         Medo de conquistar algo do qual não se acha merecedor;

·         Ficar rindo dos outros enquanto eles pagam aulas aos sábados e feriados;

·         Poder desfilar no 7 de setembro com os pelotões completos;

·         Fugir da realidade tentando manter o status de professor(a) que já não existe;

·         Mostrar aos outros que não trabalha só por dinheiro e que é ótimo professor;

·         Poder falar “tá vendo!” cada vez que vê uma notícia contra o movimento na mídia paga;

·         Colaborar com o governo que tenta menosprezar o movimento;

·         Outras vantagens do “assinador de ponto”.
“VANTAGENS” DE SER UM LUTADOR
·         Estar bem consigo mesmo, pois está certo de estar lutando pelo que é seu de direito;

·         Não ter medo de falar em justiça, igualdade, solidariedade e cidadania em qualquer lugar que estiver;

·         Poder olhar para trás e saber que esteve lá, construindo a História;

·         Poder olhar de igual para igual nos olhos dos colegas que estiveram ao seu lado;

·         Ter o respeito da sociedade que reconhece que é uma luta justa.

·         Dar aulas de cidadania mesmo que fora da sala de aula.

·         Poder bater no peito e falar com orgulho: Sou brasileiro, não desisto nunca.

·         Não ter que provar nada a ninguém, pois sua luta, por si só, já mostra sua alma.

·         Conquistar...  perder, às vezes, mas sempre se levantar de cabeça erguida e pronto para prosseguir na luta.
E AÍ, VOCÊ FOI CAPAZ DE SE POSICIONAR? EU, SINCERAMENTE, ESPERO MUITO TE TER NO GRUPO DOS LUTADORES. AINDA É TEMPO DE SOLTAR AS AMARRAS E AJUDAR-NOS A DAR O NOSSO GRITO DE LIBERDADE.
Rogério Trindade

sábado, 3 de setembro de 2011

MG: professores querem o cumprimento da Lei na íntegra

Em meio ao impasse na negociação pelo fim da greve da rede estadual de educação, a próxima exigência dos professores será aumentar o tempo destinado à preparação das aulas. Atualmente, os servidores usam seis das 24 horas de trabalho semanais para o planejamento do conteúdo para os alunos - o que representa um quarto do total. Porém, a Lei Federal 11.738, de 2008, exige que um terço da carga horária seja destinado a esse tipo de tarefa, o
equivalente a oito horas por semana em Minas Gerais.

O cumprimento da lei pode obrigar o Estado a contratar novos profissionais. A assessoria de imprensa do governo informou que um levantamento está sendo realizado para verificar como será feita a adequação à lei. O Estado não descartou ontem a possibilidade de realizar novas contratações.

Segundo a coordenadora do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE), Beatriz Cerqueira, com a atual grade curricular, é impossível que os profissionais dediquem mais duas horas ao planejamento das aulas sem que haja prejuízo no conteúdo repassado em sala.

"O Estado ainda não discutiu esse ponto com a categoria. Já que o governo não quer pagar o piso, exigimos também que os professores tenham um terço da jornada para planejar as aulas
e corrigir as provas. Certamente, será necessário um ajuste na grade curricular", disse Beatriz.

Para a professora Débora Martins, cada professor terá que ter um número menor de turmas. "O Estado terá duas opções: ou contrata mais professores efetivos ou terá que pagar um valor extra por essas duas horas que teremos que dedicar a mais. Não dá para diminuir o tempo em sala de aula sem afetar o conteúdo", disse.

Impasse. A determinação sobre o número de horas para planejar a aula faz parte da mesma lei que, no último dia 24, teve decisão favorável do Supremo Tribunal Federal, obrigando os Estados a pagarem o piso salarial de R$ 1.187,97 para uma jornada de até 40 horas semanais. O governo de Minas propôs, na última quarta-feira, um valor proporcional às 24 horas semanais trabalhadas (R$ 712,20).

A proposta foi recusada pela categoria, que reclama que o valor não leva em consideração o tempo de serviço e a formação dos profissionais.