sábado, 17 de setembro de 2011

O Kadafi das Minas Gerais

Muitas conjecturas têm sido feitas  nos últimos dias, especialmente nestes 102 dias de greve da rede estadual de ensino, sobre o comportamento insano do governador Anastasia. Arrisco-me a dizer que todas estão corretas, mas atenho-me à análise de uma delas: a de que este senhor quer reeditar algumas das páginas mais tristes de nossa História.
 À época da ditadura militar, estudantes e professores foram os mais perseguidos e criminalizados. As escolas e universidades são lugares que privilegiam o saber, a reflexão e a crítica. Esta é a razão pela qual são os primeiros locais que têm de ser "destruídos' por governos ditatoriais que veem nestes estabelecimentos um 'perigo" para os seus projetos de governo. Logo, tentam destruir o que de mais sólido se constrói ali dentro: o ideal de liberdade e de democracia latentes nas veias daqueles que se deixam "contaminar" pelo vírus da sabedoria.
Para os ditadores, palavras como liberdade e democracia soam como o barulho de um vulcão prestes a entrar em erupção. Contudo, qual a atitude mais sensata ao se perceber tal fenômeno? Os normais provavelmente sairiam em busca de informações que pudessem ajudá-los a sair dali o mais rápido possível (diálogo). Os ditadores, porém, têm a falsa ideia de que podem tapar o vulcão (o problema) a qualquer custo, afinal de contas têm todo o aparato (mídia comprada, dinheiro, força militar) de que necessitam. Assim, a ditadura no Brasil perdurou dolorosos anos e ceifou valiosas vidas. Acabou, em tese, porque, volta e meia, surgem aqueles que querem ressuscitá-la através de seus feitos. Assim é que surgem Chávez, Kadáfi, Hitler, Pinochet e tantos outros.

Mas porque incluir Anastasia no rol dos ditadores? As atitudes do governador mineiro tais como o uso de força militar desproporcional, o controle da imprensa, a perseguição aos seus opositores, a promoção pessoal através da propaganda maciça, o desprezo à população já não são suficientes?
Um político nato buscaria soluções para os problemas; os ditadores querem escondê-los a todo custo. Com a maior greve da educação de Minas, o muro que Anastasia construiu ao redor de si já começou a ruir e já não é possível mais esconder os problemas.
Mesmo com todo o controle que ele tem da imprensa e até do judiciário, sua popularidade despencou, embora seu nome nunca tivesse tanta evidência. Saia à porta de sua rua e pergunte aos passantes qual o político pelo qual eles têm mais antipatia nos últimos dias.
Já faz um bom tempo que ele não pode dar um passo para inaugurar suas obras sem que pelo menos centenas de trabalhadores estejam no seu encalço cobrando melhores condições e trabalho e salários mais dignos. A resposta é sempre a mesma: o descaso e a indiferença como formas de menosprezar os movimentos sociais. Quando não podem passar despercebidos, tais movimentos são reprimidos por policiais que parecem desconhecer o fato de que também são trabalhadores e explorados.
Seus eventos são preparados de modo a receber poucas visitas, sempre da elite. O evento de ontem (inauguração do relógio da Copa) é exemplo disso. Quase todos os transeuntes que passavam ao largo (literalmente) da antiga Praça da Liberdade (explico adiante) se perguntavam qual era o evento que acontecia ali. Aliás, não fosse a presença de milhares de educadores e estudantes e de centenas de militares o evento passaria praticamente despercebido, mesmo com a promessa da presença da presidenta Dilma.
Mas, a Praça da Liberdade mudou de nome? A julgar pelo que ocorreu ontem, sim. Primeiramente, os manifestantes que se fizeram acorrentar em frente ao local foram literalmente cercados por grades e pela tropa de choque, sendo impedidos de se alimentarem, matarem a sede e de irem ao banheiro. A praça foi toda cercada ao redor com aquelas grades que se usam quando se  espera um grande pop-star. Do lado de dentro, os companheiros ilhados (depois liberados após acordo), policiais suficientes para dar volta na praça (fora os que estavam dentro de ônibus, só de espreita) e, já dentro das cercanias do Palácio, o palco preparado para receber "sua alteza" e seus convidados ilustres. Do lado de fora, milhares de professores e estudantes ávidos por participarem da festa. Não é a Copa? Não é o futebol uma paixão mundial e orgulho dos brasileiros? Ali mesmo, fizeram a festa, do jeito que podiam, e deram show com canções do tipo: "É ou não é/ piada de salão/ tem dinheiro para a Copa/ mas não tem pra Educação." A musiquinha e outros gritos não agradaram muito "os de dentro" porque não se incomodaram nem um pouco em colocar vários ônibus em frente para tirar a visibilidade. Ali atrás, longe das câmeras, alguns dos "de dentro" aproveitaram para brindar "os de fora" com gás de pimenta.
O brinde não foi bem aceito porque logo as tais grades começaram a fazer barulho e vir ao chão. Gritos, barulho, sangue, ameaças de prisão... Não convencida, a multidão resolveu mudar de lado (pra dentro, não) da praça. Lá também a recepção foi calorosa: bombas de efeito moral (e põe moral nisso).
Assim foi que Anastasia pôs seu relógio da Copa pra funcionar: sem Dilma, sem Pelé e rodeado de antipatizantes, mesmo tendo atrasado o início do evento só para aparecer ao vivo no JN.
E é assim que continua com ar de imperador o Kadafi das Minas Gerais: idolatrado por alguns, odiado por milhares.

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