sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

APÓLOGO: O CARRO E A MOTOCICLETA


Discutiam, certa vez, num destes dias de trânsito muito lento, um carro e uma motocicleta. Era horário de pico e os efeitos já se faziam sentir em vários pontos da cidade. O assunto da discussão entre os dois veículos não poderia ser outro: quem sairia daquela situação estressante primeiro?
Neste ponto, eles não conseguiam chegar a um acordo. O automóvel, um desses modelos mais novos e mais possantes, levava a bordo seu dono com a jovem esposa prestes a dar à luz ao primeiro filho. A motocicleta, que impregnava o ar com o ronco de suas muitas cilindradas, dava montaria a um jovem obstetra prestes a assumir o plantão no hospital mais próximo.
O carro, do alto de sua robustez, propagava:
___ Lógico que, por ser mais imponente, sairei daqui primeiro! Quem se atreverá a não me dar preferência? Meus muitos cavalos me permitem forçar a passagem onde quer que eu queira.
Em matéria de arrogância, a moto também não ficava para trás e alardeava com toda sua potência:
___ Quê isso, camarada? Então desconheces minhas principais características que são a velocidade e a destreza em desviar de obstáculos?
Nisso, os dois arrogantes não tinham rompido sequer três metros. Então, ainda dava tempo de o carro se fazer ouvir mais uma vez, em meio à zoeira e à fumaça:
___ Reconheço suas habilidades. Mas veja bem: ninguém te respeita. Tens que transitar em ziguezague entre os outros e ainda de farol aceso para que te enxerguem. Quanto a mim, basta um leve piscar de faróis ou uma sonora buzinada e logo me dão passagem. Sou carro do ano, jovem, e até os velhinhos me respeitam.
A moto, do alto de suas duas rodas, não deixava por menos:
___ Ah... vá lá! Alguns despreparados até tremem com a aproximação de vocês carros. Quanto a nós, as motocicletas, gostamos de adrenalina e a luz acesa anuncia nossa chegada. Veja se todos os motoristas não estão de olho em seus retrovisores!
O bate-boca foi interrompido quando a fila de veículos voltou a andar. Alguns metros adiante e quis o destino (se é que no trânsito existe DESTINO) que os dois falastrões viessem a se chocar... de leve, mas o suficiente para calar seus motores.
O condutor do carro até ameaçou mostrar sua prepotência, mas as queixas da parturiente que ia no banco de trás o fizeram recuar. Entrara em trabalho de parto.
O piloto da moto então mostrou suas habilidades médicas. Ali mesmo, em meio a toda aquela confusão, nasceu uma linda menina.
Enquanto aguardavam a chegada da ambulância, os dois condutores conversavam amistosamente. O motorista não conseguia entender como o motociclista, mesmo sendo médico, conseguiu fazer o seu trabalho sob tão forte pressão. A esse questionamento, o médico respondeu calmamente, fitando-o nos olhos:
___ Amigo, no trânsito, a paciência e a solidariedade devem ser sempre cultivadas. Além disso, não importa em que situação estejamos: motorista, motociclista, ciclista ou pedestre, ao outro e às leis devemos respeito. Veja só: em meio a tudo isso, o que vimos aqui hoje? Mais uma vida veio ao mundo! O trânsito não tem que ser sinônimo de sofrimento e morte. Cabe a cada um de nós ajudar a mudar essa realidade.
O motociclista ouviu a tudo calado, apenas balançando a cabeça em sinal de aceitação.
Minutos mais tarde, os dois veículos saíram dali com uma lição: a VIDA é sempre o mais importante e, se trânsito também é vida, seja qual for o tipo de veículo ou de condutor, RESPEITAR É PRECISO.
 Rogério Trindade

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